quinta-feira, maio 28, 2015

Preferido

Estamos na sua última semana, meu preferido.

Sempre fico feliz com sua chegada, nem sei ao certo dizer  porque. És daqueles que chegam e cativam sem motivo, talvez por ser maio.

Já se despedes de mim, tão cheio de lágrimas de chuva e eu queria mesmo perguntar-lhe o porquê disso tudo.

Bem que eu acho que sei, que entendo, está assim mesmo, tudo tão nublado, o céu tão tão carregado  que não tem como não chorar, não tem com não pesar por tempos assim hostis.

Vamos lá Sr. Maio, as semanas passam aos pulos que logo te verei de novo. Em melhores situações, espero, nós dois.

Enquanto isso, vamos nos ensinar a não ter pressa, não ter razão, deixar chover, deixar chorar.

Sentirei saudades, mesmo com todo esse drama com o qual vieste pintar meus dias e encharcar meu coração com água fria.

Vem aqui me dizer até logo, eu já te perdoei por teres vindo assim desta vez, também tenho minhas fases.

sábado, fevereiro 28, 2015

Fábula do Amor!

Em uma manhã de maio, quando o sol escolheu sua medida certa, eu abri as cortinas e janelas da minha casa. Olhei para o portão e o vi pela primeira vez. Não o reconheci, tive que esperar que ele se apresentasse.

Esse foi o dia que o Amor me visitou.

Disse que queria me conhecer pessoalmente, porque eu andava falando muito dele pela vizinhança.

Eu, da janela da sala, passei a trocar palavras soltas com ele. Em uma pausa da conversa, imprevisivelmente, disse que gostaria de morar comigo.

Por sua fama, acabei de pronto por aceitá-lo.

Convidei-o para entrar. Senti como se tivesse chegado o tanto que me faltava na vida.

Ele sentou-se no sofá e, olhando em meus olhos, disse que nunca fica em par com alguém. Disse ainda que é preciso acrescentar mais um para que ele fique.

Olhei confusa, e disse que poderia rapidamente pensar em alguém para resolver o problema.

Ainda, olhando em meus olhos, o Amor salientou que existe um requisito para a entrada desse mais um.

Fiquei já listando em minha mente quais características essa pessoa deveria ter, mas não me atrevi a adiantar nenhuma.

Esperei que ele dissesse que, na verdade, não podemos escolher a pessoa, é necessário que ela apenas chegue e queira viver conosco. Eu, esse um e o Amor.

Confesso que não entendi. Poderíamos gastar o resto da manhã pensando em pessoas para dividir aquela casa, com quem poderíamos viver momentos ótimos.

Como me constrangi, pelo fato de estar falando do Amor aos quatro cantos desde outrora, acabei apenas aceitando suas exigências, e deixei que esse alguém chegasse.

Dias depois, como se eu nem percebesse, ele chegou de malas feitas. Eu já o ouvia ao longe conversando na calçada sobre o Amor, da mesma forma que tantas vezes eu tinha feito.

Ele chegou quando eu nem procurei, obedeci ao Amor e não o escolhi. Apenas chegou, sem bater, foi entrando como se alguém já tivesse dito que aquela casa seria sua. Como se sempre tivesse morado ali. E nós dois dissemos: sejas bem-vindo!

Passado um tempo, resolvi ter uma conversa com o um. Afinal, eram tantas coisas que foram descobertas, tantas rotinas monótonas, tantos assuntos repetidos, projetos não cumpridos. O Amor  tentando nos fazer entender um ao outro, mas algumas vezes eu nem mais o convidava para as conversas.

Disse que, do mesmo jeito que tinha vindo, que fosse. Insisti que tinha que ser diferente, que queria escolher outra pessoa, afinal poderíamos ficar melhor sem ele.

Chorou e foi embora.

No dia seguinte vi uma roupa usada, um sapato no canto da sala, um cheiro familiar no ar. Era a lembrança do Amor, mas o Amor mesmo tinha ido embora.

Desde então anseio que ele volte, costumo contar para todos que já convivi com ele, que já fomos próximos. Hoje, só consigo viver fingindo que ele ainda está comigo, dividindo os dias com um outro que escolhi.

Edvard Munch - Summer night, Inger on the beach (1889)






sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Sonhos



Milhares confundidos com
vaidades, desejos, quereres ou fugas.

Se embrenham em minha mente para que eu encontre justificativas
para maximizar a realização para criar um novo,
ou
para minimizar a frustração pelo mesmo motivo.

Dizem aí que não devemos reprimir ou desistir  deles, eu duvido



segunda-feira, janeiro 26, 2015

Dezembro

Nunca correspondi às expectativas de dezembro.

Não me empolgo genuinamente pelos festejos, não gosto da falta de projetos plausíveis do mês.

O limbo da sociedade ocidental, o culto ao estragado e a moral em um manequim de loja.

Gosto mesmo é do mês de maio, das flores, do céu, do ar e do chão, tudo ameno,  pretenso ao flerte e as esperanças que o ano crescidinho dá.



terça-feira, dezembro 16, 2014

Relógios e Dígitos


faz algumas semanas que não uso relógio para despertar 
ou para dormir 
sinto-me quase feliz por isso 

ao mesmo tempo, não sei se 
por oposto ou complemento,
faz algumas semanas que me vejo
por vontade e querer
monitorando a vida de outrem 

ao que parece
eu gosto e o outro também




sexta-feira, dezembro 12, 2014

Insista

Fotografia de Elisa Rosa - janeiro de 2013
Se quiseres insistir 
jurando que tudo é verdade
quem perde tempo és tu

Aviso que minha natureza é 
dúvida e receio

Se quiseres falar
escrever

podes assim fazer
até me encanta ler
ouvir

e até posso disso tudo sentir falta

Não te garanto a fé, a lágrima tampouco o desejo. 


Porque se eu amo
quando eu amo
é assim
De muitos e poucos

Do modo da fêmea
Efêmera

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Laços








o dia dos laços

espera que não se desfaçam

traz o descanso do ombro cotidiano

e

frases repetidas, 
expectativas frustadas, 

rotinas 

embebidas em tédio e ócio

o conforto chato de perambular procurando motivo para discordar
agitar, mas não deixar e sim ... 

segunda-feira, dezembro 08, 2014



Depois de alguns anos resolvi voltar a publicar aqui. 
Não parei de escrever, só parei de mostrar. 

domingo, agosto 28, 2011

Palavras

Palavras

Quando o Rubem Alves escreveu sobre o poder das palavras em seu livro "Lições de feitiçaria", foi como se um dia, alguém tivesse conseguido converter em letras tudo aquilo que eu sempre pensei sobre o que elas podem fazer por alguém.

As palavras curam, encantam, enganam.

É no mundo das palavras que há a maior liberdade e o maior conforto.

É aqui, escrevendo, que o mundo se mostra e desaparece para mim. É aqui também que descanso das rotinas, da ignorância e do desafeto.

Escrevendo que descrevo o amor. Todos eles, aos pedaços e aos baldes...




quarta-feira, junho 22, 2011

Entre o sono e sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa.

sexta-feira, junho 10, 2011

Adélia Prado


Olá, amigos!

Apresento um dos poemas de uma mulher que passei a gostar de ler.

Lá vai:

poema da Adélia Prado, "Para o Zé"

"

Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe — os lábios carnudos como os de uma negra.

Divago, quando o que quero é só dizer te amo.

Teço as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba.

Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:

"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros".

Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos.

Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.

Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho.

Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.

Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.

Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.

"

segunda-feira, maio 09, 2011

A visita

Com as janelas e as portas abertas, o vento do final de tarde trazia alívio para a casa.

Um assoalho de madeira brilhante refletia a luz do sol poente, até encontrar a escuridão do final do corredor, deixando um fio de luz entrar pela porta entre aberta.

Eu estava de pé, entre a sala e o corredor, espiando com o canto dos olhos, pelo canto da janela, a esquina da rua deserta. Fiquei tantas horas esperando que tive vergonha de não ter desistido, me fiz de esquecida, de conformada e fingi não mais olhar.

Eu vi suas botas, sua calça surrada, barba mal feita, unhas por cortar, um olhar de normalidade e o abraço que me visitava de passagem. Meu coração bateu carinhosamente raivoso, pela volta e pela demora, rendeu-se aquele pouco, jurando que não precisaria de mais, nunca mais.

Menti, estou aqui de pé, entre a sala e o corredor, jurando que preciso de somente um abraço mais.

quarta-feira, março 16, 2011

vinte conto

E o que te parece belo?

Me parece incrivelmente belo
que, quando a campanhia toca e
é ele,
chegando próximo ao horário de alguma refeição.
Eu olho pra o portão.
Apesar do costume, sinto um leve desconforto.
Do cheiro, do gesto ou da roupa de inverno em pleno verão.

Mas o que considero belo não é exatamente o "vinte conto".

É que em todos estes anos que ele nos visita, minha mãe vai até a porta recebê-lo.

Ele sorri com poucos dentes e ela diz: -Entra, Edmilson!

sábado, janeiro 01, 2011

Andorinhas



Quase não me lembro de como era a passagem das andorinhas por Toledo.

No entanto, recordo-me de como fiquei maravilhada ao vê-las, em bando,
beber água em voos rasantes no lago da cidade.

Aqui da janela,
acabei por avistar algumas delas perdidas,
passeando ao pôr-do-sol.

Talvez isto seja como o amor já vivido
Pode trazer algo maravilhoso
quando o sol ilumina a lembrança.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

vivendo 2011 nas últimas horas de 2010



Não quero escrever sobre metas e desejos para o novo ano, são vários e poderiam tornar o texto menos interessante.

Prefiro narrar sobre a chuva que cai aqui fora, refresca e ao mesmo tempo lembra a falta do sol.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Os trinta e três nomes de Deus - Rubem Alves


www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesLXXX.htm>

"
De vez em quando perguntam-me se acredito em Deus. Mas é claro.
Acredito mais que a maioria das pessoas. Tenho até trinta e três nomes para ele. Esses nomes foi a Margueritte Yourcenar que me contou. Ela foi uma escritora maravilhosa, autora do livro Memórias de Adriano, quem lê nunca mais esquece, quer ler de novo. Pois esses são os trinta e três nomes que ela me ensinou. É só falar o nome, ver na imaginação o que o nome diz, para que a alma se encha de uma alegria que só pode ser um pedaço de Deus... mas é preciso ler bem devagarzinho...

1. Mar da manhã
2. Barulho da fonte nos rochedos sobre as paredes de pedra
3. Vento do mar de noite, numa ilha...
4. Abelha
5. Vôo triangular dos cisnes
6. Cordeirinho recém-nascido...
7. Mugido doce da vaca, mugido selvagem do touro
8. Mugido paciente do boi.
9. Fogo vermelho no fogão.
10. Capim
11. Perfume do capim.
12. Passarinho no céu.
13. Terra boa...
14. Garça que esperou toda a noite, meio gelada, e que vai matar sua fome no nascer do sol.
15. Peixinho que agoniza no papo da garça.
16. Mão que entra em contato com as coisas.
17. A pele, toda a superfície do corpo.
18. O olhar e tudo o que ele olha.
19. As nove portas da percepção.
20. O torso humano.
21. O som de uma viola e de uma flauta indígena.
22. Um gole de uma bebida fria ou quente
23. Pão
24. As flores que saem da terra na primavera.
25. Sono na cama
26. Um cego que canta e uma criança enferma.
27. Cavalo correndo livre.
28. A cadela e os cãezinhos.
29. Sol nascente sobre um lago gelado.
30. O relâmpago silencioso.
31. O trovão que estronda.
32. O silêncio entre dois amigos.
33. A voz que vem do leste, entra pela orelha direita e ensina uma canção.

Agradeço ao Carlos Brandão por haver me apresentado os trinta e três nomes de Deus da Margueritte. Não é preciso que sejam os seus.

Faça sua própria lista. Eu incluiria: ouvir a sonata Apassionata de Beethoven. Sapos coaxando no charco. O canto do sabiá. Banho de cachoeira. A tela "Mulher lendo uma carta", de Vermeer. O sorriso de uma criança. O sorriso de um velho. Balançar num balanço tocando com o pé as folhas da árvore... morder uma jabuticaba... Todas essas coisas são os pedaços de Deus que conheço... Sim, acredito muito em Deus. "


Estes são os da Margueritte e do Rubem Alves, eu acrescento alguns meus:
- o olhar de um cão
- mão e pé de bebê
- sol de inverno
- mãos dadas

Eu teria tantos ... mas gostaria que de saber de outros "pedaços de Deus", comentem... dividam, compartilhem!!!

domingo, agosto 29, 2010

trancas

Se eu tivesse aprendido

O dia teria sido outro.

No entanto

foi cópia dos outros

de quando eu nem tinha sido ensinada.


E as portas abertas que não enxergo.

E o meu coração
sem chaves

sem ter tranca,

é só bater.

terça-feira, agosto 24, 2010

e foi...

Auguste Rodin Museum, Paris, 1908

"E foi naquele dia.

Da maneira inesperada que tinha sido planejada.

Limitrofiando o desejado antes e depois".

terça-feira, julho 20, 2010

conjugação


Mais saudade.

No pretérito mais que perfeito.

Eu saudade

Tu saudade

Nós saudades.



Mais feliz.

No futuro do pretérito.

Eu feliz

Tu feliz

Nós felizes.



Mais longe.

No presente do indicativo.

Eu aqui

Tu aí

Nós distantes.

sábado, julho 10, 2010

( )



Se alguém disser: escreva!
Acho que paro.
Sinto liberdade no silêncio.
Diz o nada.
Diz o tudo na leitura lida no teu olhar quando te vejo.
Me incentiva.
Me tenta, provoca-me a ver este olhar de novo, novo!
Mas me olhe e não me veja.